O Globo 28 Ago

Préparation du document



oglobo.com.br
.
OGLOBO
IRINEU MARINHO (1876-1925) RIO DE JANEIRO, DOMINGO, 28 DE AGOSTO DE 2011 • ANO LXXXVII • N o - 28.510 • EDIÇÃO FECHADA ÀS 21h30m ROBERTO MARINHO (1904-2003)
O suave guerreiro
Rodolfo Fernandes, diretor de Redação do GLOBO, morre aos 49 anos
● O jornalista Rodolfo Fernandes, diretor de
Redação do GLOBO, morreu ontem à tarde,
na Clínica São Vicente, na Gávea, aos 49
anos. Há dois anos, lutava contra uma doença
neurodegenerativa, aesclerose lateral
amiotrófica, que, aos poucos, foi tirando os
seus movimentos. Mesmo assim, sua dedicação
ao jornalismo o levou acomandar a
Redação até a última quinta-feira. Sobrinho
de Millôr e filho de Hélio Fernandes, construiu
uma carreira independente do pai, dono
do jornal “Tribuna da Imprensa”. Entrou
no GLOBO, em 1989, na sucursal de Brasília.
Além da família, era apaixonado pela política,
o Rio e o futebol. O Flamengo, seu time
do coração, entra em campo hoje de luto no
clássico contra o Vasco. Páginas 14 e 15
Marco Antônio Teixeira/17.3.2004
RODOLFO no GLOBO: humor, leveza e elegância
Revista
O
A vez das caçulas
Seguindo uma tradição que
tem Maria Bethânia, Nara
Leão e Maria Rita, outras
cinco caçulas — filhas de
João Bosco, Danilo
Caymmi, Egberto Gismonti,
Itamar Assumpção e Paulo
Leminski — buscam
espaço na música.
SAÚDE
Um dos principais motivos
que levam homens à
clínica do sono é a
dificuldade de ter ereção.
VIVI RIBEIRO é repórter do
canal Combate
“Nevermind”, CD do
Guito Moreto
Nirvana que mudou os
rumos do rock, faz 20
anos com tributos.
Dos ringues aos estádios
de futebol, e até nas
boleias de caminhão,
mulheres se infiltram na
programação
“masculina” e provam
que não existe assunto
só de homem.
SEGUNDO CADERNO
Lugar de
mulher é...
CAETANO VELOSO: Sinto
alegria em ver fotos dos
rebeldes árabes, espanhóis
e mesmo dos ingleses.
Furacão deixa
sem luz 900
mil imóveis
● Enfraquecido, mas ainda
perigoso, ao chegar à Costa
Leste dos EUA, o furacão
Irene deixou pelo menos 8
mortos e 900 mil casas e lojas
sem energia, e deve
atingir Nova York na manhã
de hoje. Página 44
Brasil vive um
apagão de
informações
● A falta de banco de dados
confiável e integrado impede
o país de saber quantos
criminosos estão foragidos
da Justiça e permite, por
exemplo, que um cidadão
tenha 27 carteiras de identidade.
Páginas 3 e 4
Botafogo
vence o Flu
de virada
● O Botafogo derrotou ontem
o Fluminense por 2 a
1, de virada. Com o resultado,
o alvinegro pode terminar
o primeiro turno do
Brasileiro na terceira colocação.
Caderno Esportes
Bonde superlotado causa
tragédia em Santa Teresa
Acidente deixa 5 mortos e 57 feridos, entre eles estrangeiros
O BONDINHO TOMBADO: capacidade era de 32 passageiros sentados e 12 em pé, mas só feridos foram 57, além de 5 mortos
Felipe Hanower
● Cinco pessoas morreram e
57 ficaram feridas, dez delas
em estado grave, quando um
bonde saiu dos trilhos e tombou
numa curva da Rua Joaquim
Murtinho, em Santa Teresa.
Entre os feridos estão
americanos, um casal de franceses
e uma portuguesa. Moradores
disseram que o veículo
— com capacidade para 32
passageiros sentados e 12 em
pé — descia aladeira em alta
velocidade e denunciaram as
condições precárias de operação
dos bondinhos, que não
mudaram desde a queda e
morte de um turista francês,
há dois meses. Página 17
● Uma batida frontal de um
carro com um ônibus na Avenida
das Américas, no Recreio,
matou um jovem de 21
anos e feriu 25 passageiros. O
corpo ficou preso às ferragens
durante horas devido ao elevado
número devítimas, segundo
a polícia. Página 33
Deborah Berlinck
O LÍBIO-AMERICANO Adam Ahmed abandonou a vida nos EUA
Do sonho americano
à luta líbia
Formado em sociologia e psicologia, jovem de
22 anos é um dos que esperam um novo país
● Nascido em Washington de pais líbios exilados,
Adam Ahmed, 22 anos, nunca pensou que
um dia trocaria os diplomas de psicologia e sociologia
por um fuzil AK-47. Desde fevereiro lutando
com os rebeldes contra Muamar Kadafi,
ele e outros líbios contam a DEBORAH BERLINCK
suas esperanças para o futuro. Página 42
● Aenviada especial à Líbia relata também ohorror
num campo de Trípoli, onde cerca de 150 pessoas
teriam sido executadas por forças do ditador
sob acusação de apoiar os rebeldes. Página 41
FREI BETTO
Após 40 anos de militância
político-religiosa, romance
histórico é a 54 a - obra do frade
amigo de Lula e Fidel. Página 14
C H I C O
E NO TURISMO...
3 a - Edição • Preço no RJ, MG e ES: R$ 4 • Morar Bem e Boa Chance circulam na Região Metropolitana do Rio, na Costa Verde, na Região Serrana e na Região dos Lagos (menos Macaé e Rio das Ostras)
2 3ª edição • Domingo, 28 de agosto de 2011
O GLOBO
Márcia Foletto
PANORAMA
POLÍTICO
de Brasília
Novo apelo
● Em toda a volta da Lagoa Rodrigo de Freitas os sinais de
abandono são evidentes: plásticos sinalizam obras que
nunca terminam, restos de quiosques ficaram esquecidos
“Não foi apenas nosso
medo pessoal que começou
a se dissipar nos últimos
seis meses. Nós também
começamos ativamente a
reivindicar uma nação que
havia sido sequestrada há
mais de quatro décadas”
GHAZI GHEBLAWI • CIRURGIÃO, ENSAÍSTA E
POETA LÍBIO
“Chamo todos os líbios
para a luta. Aqueles que
tiverem medo deem as
armas para suas mães ou
irmãs. Se não reagirmos,
eles vão queimar Trípoli”
MUAMAR KADAFI • DITADOR LÍBIO
“Em briga de família, irmão
mata irmão, e morre todo
mundo. Por isso eu disse
que isso vai virar sangue.
Esse pessoal não sabe
avaliar os riscos. Não
devemos expor as vísceras”
“Imagine se começar a
vazar o currículo de alguns
deputados. Ou melhor, folha
corrida. Mas não vou citar
nomes. Quero pacificar”
MÁRIO NEGROMONTE • MINISTRO DAS CIDADES,
SOBRE AS CONSEQUÊNCIAS DO RACHA NO PP, QUE DEU
ORIGEM À DENÚNCIA DE QUE ELE OFERECERA MESADA DE
R$ 30 MIL A PARLAMENTARES DA LEGENDA
“Não se demite nem se faz
escala de demissão, nem
sequer demissão todos os
dias. Isso não é, de fato,
Roma antiga”
DILMA ROUSSEFF
COLUNAS E ARTIGOS
VERISSIMO
O tempo absolveu JK, lentamente
ele passou de corrupto a exemplo
OPINIÃO • PÁGINA 7
ELIO GASPARI
Hospitais públicos já têm duas
portas: para o SUS e para os planos
O PAÍS • PÁGINA 16
MÍRIAM LEITÃO
Mulheres asiáticas fogem do
casamento e da maternidade
ECONOMIA • PÁGINA 36
ANCELMO GOIS
Deu na Piauí Herald: Temer quer
cadeira de Steve Jobs para PMDB
RIO • PÁGINAS 28 e 29
ARTUR XEXÉO
Não se faz escândalo como nos 60,
mas ministros evasivos assustam
REVISTA O GLOBO • PÁGINA 52
“Débil mental, sim! Você
está pensando que eu sou
moleque? Vai ter de
aprender a respeitar os
outros”
HUMBERTO COSTA • SENADOR (PT-PE) A MÁRIO
COUTO (PSDB-PA)
FRASES DA SEMANA
“Eu sempre disse que, se chegasse o dia em que
não pudesse mais cumprir meus deveres e
expectativas como diretor executivo da Apple,
eu seria o primeiro a dizer-lhes. Infelizmente,
esse dia chegou”
STEVE JOBS • FUNDADOR DA APPLE, AO ANUNCIAR SUA SAÍDA DO COMANDO DA EMPRESA
“Você é um safado!
Você responde a
processo na Justiça.
Da próxima vez,
vou dizer isso da
tribuna”
MÁRIO COUTO • SENADOR (PSDB-
PA) A HUMBERTO COSTA (PT-PE)
“Não posso
descartar (que
tenha voado em
aeronave da
empreiteira). Não
conheço o avião”
PAULO BERNARDO • MINISTRO DAS
COMUNICAÇÕES, SOBRE O USO DE AVIÃO
DE EMPREITEIRA
O lado feio da Lagoa
‘Lista suja’ do trabalho escravo
no país tem um salto de 65%
● Com o aperto da fiscalização, subiu para
249 ototal de empresas que usam mão de
obra escrava. Os problemas maiores estão
no agronegócio. ECONOMIA, página 38
Vila olímpica de 2016 terá
tamanho igual a meio Leblon
● O projeto da vila de atletas foi reformulado.
Terá área de 400 mil metros quadrados
com sete condomínios, 40 prédios e
3.528 apartamentos. RIO, página 32
Botafogo passa por mudança
na arquitetura e no espírito
● Bairros centrais em suas cidades, Botafogo
e Aligre, no 12ème arrondissement de
Paris, ganham nova arquitetura e uma classe
média de renda mais alta. MORAR BEM
perto do Parque dos Patins, deques estão quebrados e o
lixo enfeia as áreas de mangue. Moradores reclamam do
descaso com o cartão-postal da cidade. RIO, página 30
Beck Diefenbach/Reuters
“Fui obrigada a fazer isso
porque ele quis abusar de
minha filha, e isso eu jamais
aceitei. Eu não ia aguentar ver
a menina passar pelo mesmo
sofrimento que passei quando
tinha 9 anos”
SEVERINA MARIA DA SILVA • ABSOLVIDA POR UNANIMIDADE
DEPOIS DE CONFESSAR TER MANDADO MATAR O PAI, QUE A
VIOLENTAVA DESDE MENINA E COM QUEM TIVERA 12 FILHOS.
“Já mataram Kennedy, o juiz
Giovanni Falcone e balearam o
Papa. Então, se alguém quiser
me matar, não será a segurança
que vai impedir”
FÁBIO UCHOA • JUIZ QUE OCUPOU A VAGA DE PATRÍCIA
ACIOLI, EXECUTADA COM 21 TIROS
TCU pressiona para retomada
de áreas no Jardim Botânico
● O TCU intimou a Secretaria do Patrimônio
da União (SPU) aseexplicar sobre
ação que favorece ocupações irregulares
no Jardim Botânico. RIO, página 29
Furacão chega fraco aos EUA,
mas emergência é mantida
● O furacão Irene chegou àCarolina do
Norte, na manhã de ontem, rebaixado à categoria
1 (a menor na escala). Mas o alerta
na Costa Leste foi mantido. Página 44
Militante ecológico, um novo
espécimen nas empresas
● Chamados de profissionais do futuro
por uns e de “ecochatos” por outros, funcionários
conseguem que empresas endossem
seus projetos. BOA CHANCE
MANCHETES DO GLOBO
Clínicas pagam propina para
receber pacientes
DOMINGO, 21 DE AGOSTO
Prisão de filhos de Kadafi põe
regime perto do fim
SEGUNDA, 22 DE AGOSTO
Otan e rebeldes caçam Kadafi,
que ainda resiste
TERÇA, 23 DE AGOSTO
Rebeldes líbios tomam QG,
mas não encontram Kadafi
QUARTA, 24 DE AGOSTO
Rebeldes ainda combatem,
mas já prometem eleições
QUINTA, 25 DE AGOSTO
ONU libera US$ 1,5 bi para
governo de rebeldes líbios
SEXTA, 26 DE AGOSTO
Interventor encontra ralos
para corrupção na Conab
SÁBADO, 27 DE AGOSTO
“Se nós não acreditamos
nela, não podemos pedir a
um júri que o faça”
CYRUS VANCE JR • PROCURADOR-GERAL
DE NOVA YORK, SOBRE A CAMAREIRA
NAFISSATOU DIALO, AO JUSTIFICAR
O PEDIDO DE ENCERRAMENTO DO CASO DSK
“Saio do inferno do Atacama
para o céu de Jerusalém”
DE GLORIA MARIA • AO DEIXAR O DESERTO CHILENO, EM
DIREÇÃO À COBERTURA DO SHOW DE ROBERTO CARLOS
“Não perguntei sua
profissão, desce logo”
POLICIAL • AO COMPOSITOR ALUÍSIO MACHADO
QUE ACABARA DE DIZER QUE NÃO PODERIA
SAIR DO CARRO POR SER TETRAPLÉGICO
● Na reunião do Conselho Político, amanhã, a presidente
Dilma vai pedir cautela para os aliados
com propostas que criem novos gastos em meio à
crise econômica internacional. O recado vale para
a regulamentação da emenda 29 (investimentos na
Saúde) e para a PEC 300 (fixa piso salarial nacional
para bombeiros epoliciais). Ogoverno vai antecipar
aos aliados o projeto do Orçamento 2012,
que será enviado esta semana para o Congresso.
Governo Dilma x base aliada
● Há um descompasso entre
a pauta do governo Dilma para
enfrentar a crise econômica
internacional e a agenda
dos principais partidos, PT e
PMDB, que apoiam seu governo.
Enquanto a presidente
corta gastos e pede para que
não se votem projetos que
aumentem as despesas públicas,
sua base faz o contrário.
“
A oposição é minoria mesmo, e não tenho
vergonha disso. Qualquer coisa que eu tenha acima de
60, 80 votos, que é o nosso número aqui, é uma
vitória” — ACM Neto (BA), líder do DEM na Câmara
ALERTA. O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça), na foto, está
tentando pacificar os movimentos de policiais e bombeiros, que
pretendem lotar o Congresso em setembro para pressionar pela
votação da PEC 300, que fixa um piso salarial para essas
categorias. O governo federal quer evitar um incidente como o do
Rio, em que bombeiros ocuparam o quartel central da
corporação, em campanha por melhores salários.
Prestígio
● A presidente Dilma vai
entrar pessoalmente, no segundo
semestre, nas articulações
para tentar garantir
a vinda de chefes de Estado
para a Rio+20, em junho do
ano que vem. No fim, esse
acaba sendo o termômetro
de sucesso do evento.
Cautela
● O PT não dá como certa a
escolha do senador José Pimentel
(PT-CE) para líder
do governo no Congresso.
Apesar da preferência da
presidente Dilma, avaliam
que a função pode ser usada
para aplacar a guerra entre
aliados na Câmara.
■ ■ ■ ■ ■ ■
O líder do PMDB, Henrique
Alves (RN), apoia movimento
para votar aemenda 29, que
pode ampliar os gastos com a
Saúde. Já o líder do PT, Paulo
Teixeira (SP), acaba de fechar
uma pauta comum com a
CUT, da qual consta votar o
fim do fator previdenciário.
Os líderes são dissidentes?
Ou jogam para a plateia?
Ailton de Freitas/25-8-2011
Debruçado
● A despeito da simpatia no
governo pelo deputado Aldo
Rebelo (PCdoB-SP) na
eleição para ministro do
TCU, a líder do PSB, Ana Arraes
(PE), está sendo apontada
como favorita. O expresidente
Lula entrou em
campo para elegê-la.
Os ‘hermanos’: é sempre assim
● Sempre que há eleições na Argentina, sofrem os
empresários brasileiros que têm negócios lá. Hoje estão
retidos na aduana argentina 600 tratores e 150
colheitadeiras exportadas pelo Brasil. A presidente
Cristina Kirchner pressiona as empresas daqui a
instalarem linhas de montagem na Argentina. A ministra
da Produção deles, Débora Giorgi, está pondo lenha na
fogueira. Ela quer ser ministra da Fazenda no lugar de
Amado Boudou, candidato a vice na chapa de Cristina.
Royalties
● Lideranças partidárias do
Senado e senadores interessados
no assunto fecharam
acordo, quarta-feira, para
votar o projeto de distribuição
dos royalties do petróleo
entre os dias 12 e 14 de
setembro. Oprazo final
acordado é dia 15.
● SEDE. A Confederação Nacional dos Municípios
ganhou da Superintendência de Patrimônio da União
um terreno de 5.000m², em Brasília, para construir
sua sede.
● O GOVERNO vai anunciar, em setembro, o Plano de
Ação para Inclusão das Pessoas com Deficiência. As
medidas têm como foco inicial garantir acessibilidade
nas cidades-sede da Copa do Mundo de 2014.
● DO PLANALTO. Caso o ministro Paulo Bernardo
(Comunicações) fique insustentável, a presidente
Dilma tem seu preferido: Franklin Martins.
ILIMAR FRANCO com Fernanda Krakovics, sucursais e
correspondentes
E-mail para esta coluna: panoramapolitico@oglobo.com.br
.
Domingo, 28 de agosto de 2011
O GLOBO
O PAÍS
3
APAGÃO DE INFORMAÇÕES
Na Segurança, só insegurança
País não sabe sequer quantos foragidos a Justiça tem, o que impede uma política para o setor
Alessandra Duarte
duarte@oglobo.com.br
Carolina Benevides
carolina.benevides@oglobo.com.br
OBrasil governa às cegas na
Segurança Pública. O país
não sabe quantos pessoas
estão foragidas da Justiça.
Também não sabe quantas estão desaparecidas.
Não tem um cadastro nacional
de impressões digitais, o que
faz com que uma mesma pessoa possa
ter 27 carteiras de identidade, uma em
cada unidade da Federação. E o mapa
de ocorrências criminais com que o
Ministério da Justiça trabalha para
planejar suas ações tem dados de três
anos atrás, emprestados do SUS. A
consequência da desordem é que a segurança
pública é planejada e executada
sem informação. A ausência de
bancos de dados nacionais eafalta
que a informação faz para a ação pública
são tema de uma série de reportagens
que O GLOBO passa a publicar
hoje, começando pela segurança.
Hoje, um juiz pode liberar um detido
mesmo com mandados de prisão
contra ele em outros estados. Isso
porque, em muitos casos, ojuiz só
tem condições de checar os antecedentes
criminais da pessoa no estado
em que trabalha, enão em todos os
outros — justamente por não haver
cadastro nacional de foragidos com os
mandados expedidos. Está aí a explicação
para casos como o do pai da jovem
Eloá Pimentel, Everaldo Pereira
dos Santos. Foragido da Justiça alagoana
há 18 anos e acusado de quatro
homicídios, só foi descoberto em
2008, ao surgir na TV quando o namorado
da filha a matou, em São Paulo.
— Você não sabe nem quantos mandados
de prisão, quantos foragidos há
no país — diz Walter Nunes da Silva Jr.,
juiz e conselheiro do Conselho Nacional
de Justiça (CNJ). — O que se tem
são estimativas. Um diz 170 mil (foragidos),
outro diz 250 mil. O Judiciário
não sabe, a polícia não sabe. Por quê?
Porque a informação não éintegrada.
Converse com qualquer juiz, eele vai
dizer da angústia que é decidir se libera
ou não alguém. Ele sabe que solta
com base em informação incompleta.
Walter Nunes érelator de uma resolução
do CNJ aprovada no início de
julho que cria um banco nacional de
mandados de prisão. Pela resolução,
os Tribunais de Justiça de todos os estados
têm até seis meses para começar
a alimentar esse banco, enviando
os dados dos mandados expedidos
por cada um. Para isso, porém, será
preciso passar por mais um obstáculo:
o fato de que cada TJ produz um
mandado de prisão de um jeito.
— Todos os mandados em aberto
terão de ser reeditados, para terem um
mínimo comum de dados, como local,
hora, tipo de crime — diz Nunes.
Em cada estado, um
tipo de ocorrência
Marcos Tristão
HELENA COM a foto da filha: “Colhemos material para DNA. Extraviaram, e fui ter o resultado 6 meses depois. Minha filha morreu em 2006, só consegui enterrá-la em 2007”
‘Quem fez o retrato falado foi meu filho’
Falta de dados aumenta sofrimento de parentes de desaparecidos
● Osite da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência
é claro: “Embora não se possua dados consolidados,
estima-se que dez mil ocorrências de desaparecimento
de crianças eadolescentes sejam registradas
anualmente nas delegacias de todo o país”.
Para tentar ajudar a solucionar esses casos, aLei
12.127, de dezembro de 2009, propôs a criação de um
cadastro nacional: a RedeSap.
Desde 2010 como parte do Ministério da Justiça, a
RedeSap reúne dados passados pelos estados e esbarra
na mesma dificuldade do InfoSeg: não é alimentada. De
1 o - de janeiro de 2000 a 26 de agosto de 2011, a RedeSap
registra, no site, 559 desaparecidos e 644 encontrados.
Pela assessoria, o ministério reconhece que os estados
não enviam os dados. Diz ainda que o ministro José
Eduardo Cardozo já visitou 15 estados para firmar um
PEDRO BORGES: sem dados oficiais, o próprio procurador criou um banco de desaparecidos
● Afalta de dados — oque fez oministro
da Justiça, José Eduardo Cardozo,
afirmar em abril que “há total falta
de integração dos órgãos de segurança”
no país e prometer a criação de um
sistema nacional de criminalidade — é
empecilho também para o sistema
existente hoje no Ministério da Justiça,
que reúne os registros de ocorrência
policial dos estados, a rede InfoSeg. As
polícias estaduais (sejam militares ou
civis) não são obrigadas a enviar os registros
para osistema. Envia quem
quer ou pode. E, ainda, cada polícia registra
as ocorrências de um modo —
um assassinato pode ser registrado
como homicídio em um estado e como
auto de resistência em outro. Então,
mesmo as polícias que enviam os registros
mandam dados que não são
uniformes e, portanto, são difíceis de
serem unificados num sistema.
—Oproblema é que éumsistema
descentralizado, com polícias atuando
de forma regional. Aí vem a segunda
questão: como os estados têm autonomia,
não se poderia obrigá-los a mandar
essas informações — analisa Sérgio
Renault, ex-secretário de Reforma
do Judiciário do Ministério da Justiça.
— Garanto que o pacto federativo
não é para isso. Não é para prejudicar
a política de segurança. Por que vivemos
em sociedade? Para, entre outras
coisas, termos um mínimo de segurança.
Se um criminoso pode fugir ali para
o meu vizinho, como é que os órgãos
não se comunicam? Agora, os estados
não recebem dinheiro do governo federal
para segurança? É só dizer que
não vai mandar o dinheiro se não mandarem
os dados. Quero ver quem não
enviará — afirma o juiz Walter Nunes.
—Informação de qualidade serve
para orientar a aplicação da verba
destinada à segurança. Sem isso, o
país aplica mal os recursos. Fica sem
saber se a proposta é adequada e se
produziu ou não resultados satisfatórios
— afirma o deputado federal Alessandro
Molon (PT-RJ), que vai apresentar
um projeto condicionando o repasse
de recursos ao abastecimento
do banco de dados pelos estados.
A InfoSeg também não inclui os registros
de impressões digitais dos órgãos
estaduais de identificação. Nem a
InfoSeg nem qualquer outro órgão centralizam
esses registros atualmente.
—Uma mesma pessoa pode ter 27
carteiras de identidade. É caótico —
afirma o presidente da Associação
Brasileira dos Papiloscopistas Policiais
Federais (Abrapol), Celso Zuza. —
Aliás, isso torna mais fácil uma pessoa
tirar mais de um passaporte, com carteiras
diferentes, para fugir do país.
Justamente para integrar os registros
de impressão digital éque ogoverno
federal está criando oRegistro
de Identidade Civil (RIC), que trará um
chip e será um registro único para todo
o país, centralizado pelo Instituto
Nacional de Identificação. Anunciado
desde o ano passado e com custo de
cerca de R$ 100 milhões, segundo Zuza,
ocartão RIC começa aser distribuído
dentro de dois meses:
— É uma ideia discutida há mais de
pacto que os obrigue aenviar dados, incluindo de desaparecidos.
Quem descumprir, a partir de data ainda
não estabelecida, terá verbas e convênios cancelados.
Afalta de integração entre polícias, IMLs ehospitais
angustia quem tem um parente desaparecido. Há cinco
anos, Helena Elza da Silva, moradora do Rio, viu a filha
pela última vez. Em julho de 2006, Maria Heloísa, com 9
anos, foi levada por um homem que fingiu ter combinado
com Helena que iria buscá-la. Os pais descobriram após
uma semana que ela tinha sido estuprada e morta.
— Quem fez o retrato falado do homem que a levou foi
meu filho mais novo. Fomos ao IML e tinha um corpo
desfigurado. Colhemos material para fazer exame de
DNA. Extraviaram o exame, só fui ter o resultado seis meses
depois. Minha filha morreu em julho de 2006 esó
consegui enterrá-la em janeiro de 2007 — conta Helena.
Pablo Jacob Constatando que “nunca
houve banco de dados de desaparecidos
e aparecidos”, o
procurador do Ministério Público
Estadual do Rio Pedro
Borges criou oPrograma de
Localização e Identificação
de Desaparecidos (Plid).
— Existiam listas, mas
sem tratamento da informação.
Segundo o Isp (Instituto
de Segurança Pública), de
12% a 16% dos desaparecimentos
são caso de polícia.
Então, a polícia não pode
ser a única fonte de localização.
Criamos o Plid, com
parceiros como IML e Santa
Casa. O MP capitaneia o programa
econta com o Disque-Denúncia
— diz Borges,
que quer apresentar ao ministério
o modelo criado. —
Nos últimos oito meses, resolvemos
quase 400 casos.
dez anos. Mas, para todos os estados
estarem integrados, acredito que só
daqui a pelo menos cinco anos.
A falta de informação não é só um
problema para a resolução de crimes.
Faz com que o Estado gaste mal a verba
para segurança. Um perito do Rio
que preferiu não se identificar conta
que a Polícia Civil recebeu uma máquina
para banco de imagens que servia
apenas para contabilizar crimes em locais
com baixo índice de criminalidade.
Segundo ele, “o dinheiro teria sido
mais bem aplicado em computadores,
impressoras e luvas para os peritos”.
— Sem informação não há trabalho
de inteligência, não há prevenção do
delito. Há quem pense que o sistema
integrado vai dizer quantos crimes foram
cometidos. Mas vai mostrar também
quantos a polícia conseguiu resolver,
quantos foram para o MP, quantas
Em Nova York,
registros diários
e integrados
● Em meados da década de
1990, a polícia de Nova York começou
uma transformação por
meio da informação. Foi nessa
época que passou a ser implantado
oCompStat, sigla para
Computerized Statistics. Mais
tarde, departamentos de polícia
de outros estados dos EUA começaram
a utilizar o modelo.
Atualizado diariamente, o
CompStat é um sistema que reúne,
de forma padronizada, os registros
de ocorrências de crime
por dia, horário e local. E cria séries
históricas que permitem a
comparação com os anos anteriores
e outras áreas, e a identificação
em mapas de tendências
de redução ou aumento de ocorrência
de determinado crime.
Além da integração de dados,
o CompStat inclui reuniões semanais
de policiais e integrantes
de outros órgãos de segurança,
para troca das informações registradas
eestabelecimento de
linhas de ação e metas.
Inspetor aposentado e participante
da implantação do
CompStat, Arthur Storch, hoje
consultor e professor da John
Jay College of Criminal Justice,
afirma que após os primeiros
anos os índices de criminalidade
em Nova York caíram mais de
70%. Segundo ele, “a mágica do
CompStat” é que “une todas as
unidades e os integrantes da polícia
em torno de uma meta”.
denúncias chegaram à Justiça — conclui
Julio Jacobo, sociólogo e autor do
Mapa da Violência, que aponta estados
e municípios mais violentos do país. —
Com as informações que temos hoje, a
estimativa é que entre 7% e 8% dos homicídios
sejam resolvidos.
— A cultura do Brasil é a do flagrante.
Informação de qualidade mudaria
isso — diz Pedro Abramovay, professor
de Direito da FGV-RJ e ex-secretário
nacional de Justiça. — Prendemos
o pequeno traficante e autores de roubos
simples. Mas prende-se menos
quem comete crimes mais sofisticados,
que precisam de investigação. ■
OGLOBO NA INTERNET
OPINIÃO As polícias estaduais
deveriam ser obrigadas a repassar
informações ao governo federal?
oglobo.com.br/pais
.
4 O PAÍS ● O GLOBO
Domingo, 28 de agosto de 2011
MERVAL
PEREIRA
Jabuticaba eleitoral
● Mesmo que não tenha nenhuma segunda intenção
— etudo indica que tenha —aproposta do
deputado petista Henrique Fontana (RS) para a reforma
eleitoral parece ser, no mínimo, uma tentativa
de agradar às várias correntes em que o tema
divide o Congresso, tornando mais distorcido ainda
nosso sistema eleitoral.
A ideia de fazer uma eleição
proporcional tanto em
lista fechada quanto em
aberta, metade dos representantes
para cada modalidade,
mantém os vícios tão
criticados do sistema atual
e não produz nenhum avanço
da cidadania.
Ao contrário, colocará na
Câmara dos Deputados, nas
assembleias legislativas e
nas câmaras de vereadores
dois tipos de representantes:
os escolhidos diretamente
pelo povo, e os outros,
escolhidos pelas direções
partidárias.
Os políticos que temem a
ditadura dos partidos novamente
sacarão um argumento
poderoso, que inviabilizou
a aprovação do voto em
lista fechada: adeque o
eleitor não terá o direito de
escolher diretamente parte
de seus representantes.
Aoposição à lista fechada,
que éapreferência dos
dois maiores partidos, o PT
eoPMDB, deve-se principalmente
ao perigo da institucionalização
da ditadura
partidária, em que as direções
dominariam seus filiados
pelo poder que teriam
de montar alista de candidaturas
de acordo com seus
critérios, e os eleitos deveriam
seus mandatos aos
que controlam o partido.
Na prática, isso já existe
hoje, embora sempre seja
possível um candidato bom
de voto se impor diante da
direção partidária.
Na teoria, os defensores
da lista fechada consideram
que o sistema fortalece o
partido político e reduz o individualismo
que hoje predomina
nas relações partidárias
e mesmo na atuação
nos plenários.
Essa deveria ser uma discussão
bastante ampla para
resultar em algum consenso,
mas, da maneira como o
assunto vem sendo tratado
em Brasília, se alguma solução
for aprovada será sem
acordo entre os parlamentares,
amaioria afastada das
discussões.
Existe a comissão que trata
da reforma política e vários
fóruns informais em que
o assunto está sendo discutido,
mas diversos partidos
não têm representantes em
nenhum dos grupos.
Uma reforma no sistema
eleitoral àguisa de reforma
política está sendo gestada
nos bastidores do Congresso,
e PT e PMDB voltam a defender
o voto em lista fechada,
o que daria às direções
partidárias opoder de escolher
quais seriam os candidatos,
eem que lugar eles apareceriam
na lista oficial.
Como houve uma grande
reação na primeira vez em
que o assunto foi lançado à
discussão, chegaram a essa
fórmula esdrúxula de duas
formas de voto proporcional,
mais uma jabuticaba
política, assim como já houve
propostas de fazer um
“distritão” misto, que seria
um jeitinho brasileiro de fazer
o voto distrital misto
sem o problema de dividir o
país em distritos.
A adoção do voto distrital,
puro ou misto, parece ser a
melhor tentativa para baratear
o custo das campanhas
eleitorais e dar maior controle
dos eleitos aos eleitores.
A discussão não vai muito
E-mail para esta coluna: merval@oglobo.com.br
longe porque esbarra na impossibilidade
de se chegar a
uma definição sobre o melhor
critério de se dividir o país.
O que dificulta aaprovação
de sistemas eleitorais
que adotem a divisão dos
estados em distritos é o desequilíbrio
na representação
popular, com um distrito
de 800 mil eleitores em
São Paulo eoutro deoito
mil no Amapá.
O eleitor dos grandes
centros ficaria em desvantagem,
seu voto valendo menos
do que odo eleitor de
um pequeno estado.
Tendo em vista a excessiva
fragmentação do pluripartidarismo
brasileiro, há
também o risco de a definição
da vontade das maiorias
ser uma tarefa complexa
e polêmica.
Com 21 partidos disputando
a eleição em um distrito
para uma vaga, dificilmente o
eleito no distrito representará
a maioria, a não ser que a
definição seja feita em um segundo
turno, o que complica
ainda mais a eleição.
A proposta que está sendo
apresentada pelo relator petista
Henrique Fontana tem
outra incongruência: ela mantém
ofinanciamento privado
das campanhas eleitorais,
embora institua também ofinanciamento
público.
Na origem da defesa do
voto em lista fechada, um
dos argumentos mais fortes
era o de que somente esse
tipo de sistema eleitoral
permitiria o financiamento
público de campanha, que
seria dado ao partido responsável
pela lista.
Seus defensores chegaram
a dizer que overdadeiro objetivo
da proposta era moralizar
as campanhas eleitorais,
reduzindo a corrupção e
suas consequências nos desmandos
dos governos.
O voto distrital, e até
mesmo o“distritão” (onde
os estados viram distritos e
a eleição torna-se majoritária,
com aeleição dos mais
votados), no entanto, teriam
as mesmas vantagens
de reduzir ao âmbito do distrito
as campanhas, reduzindo
seus custos ou dificultando
exteriorizações de riqueza
de candidatos.
Com a apresentação da
proposta de uma espécie de
financiamento misto entre
público e privado, a solução
para a questão do caixa dois
eleitoral fica mais longe ainda,
e a defesa do voto em lista
fechada perde um de
seus melhores argumentos.
A proposta do deputado
Henrique Fontana tenta alterar
as regras eleitorais por
maioria simples, utilizando a
legislação ordinária e não
mudanças constitucionais.
O fim das coligações, no
entanto, só poderia acontecer
por mudança na Constituição,
logo esse ponto, um
dos mais importantes para
evitar a distorção do voto
proporcional, onde oeleitor
vota em um candidato e ajuda
a eleger outros, de outras
legendas que nada têm a ver
com a sua intenção inicial.
Há também proposta de
permitir a formação de “federações”
de partidos, o
que na prática seria uma
maneira de permitir que
partidos menores se coliguem
com os grandes puxadores
de votos.
APAGÃO DE INFORMAÇÕES
De arma do crime esquecida pela
perícia até provas jogadas fora
MPs não têm acesso regular a sistemas das secretarias de Segurança
Alessandra Duarte, Carolina
Benevides, Flávio Freire
e Odilon Rios
opais@oglobo.com.br
● RIO, SÃO PAULO eMACEIÓ. Jean
nunca se chamou Jean, assim
como Aldo não foi batizado de
Aldo. Tampouco Adimar nasceu
com esse nome. Foragidos da
Justiça, eles falsificaram documentação
para viver tranquilamente
num estado diferente de
onde cometeram crimes pelos
quais não pagaram. E mais: tiveram
chance de cometer outros.
Em abril de 2010, dois irmãos
adolescentes foram mortos a
pancadas, depois de estuprados
por Jean Passos Moreno. Ocrime
foi em Rondônia. Quando o
assassino foi preso, a polícia descobriu
que Jean se chamava Jessé,
eera foragido há dois anos
no Acre, onde foi condenado a
30 anos de prisão por estupro.
— Se o criminoso trocou a
identidade, nada impede que ele
leve vida normal se não tiver alguém
ou uma situação que o denuncie
— diz o chefe interino da
Divisão de Vigilância e Captura
(Decap) de São Paulo, Renato
Marcos Porto, também delegado
titular da Polinter paulista.
O precário sistema de informações
entre as polícias colaborou
ainda para que outra tragédia
acontecesse. Foragido da cidade
baiana de Serra Dourada
desde 2000, opedreiro Ademar
Jesus da Silva trocou a grafia de
seu nome — passou a se chamar
Adimar —para viver tranquilamente
na cidade de Luiziânia,
em Goiás. Foi lá que ele abusou e
matou seis jovens no ano passado.
Ademar morava na cidade
goiana há mais de dois anos, e
ninguém nunca desconfiou do
seu passado, até ele ser preso.
Falhas na perícia são outro
obstáculo. Em São Paulo, a microempresária
Cristina Conceição
Magalhães foi morta a facadas
em casa, no Jardim Orly. Sete
peritos do Instituto de Criminalística
chegaram ao local dez horas
depois de os vizinhos terem
encontrado ocorpo. Ficaram na
casa por duas horas, mas quando
os familiares puderam entrar
tiveram uma surpresa: a faca que
pode ter sido usada no crime estava
debaixo da cama, assim como
a blusa usada pela vítima,
manchada de sangue e com perfurações,
e um luva com aqual
peritos teriam coletado provas.
—Não dá para acreditar que
a perícia deixou para trás a arma
do crime — diz Cleonice Magalhães,
irmã da vítima.
Marcelo Albuquerque/“Gazeta de Alagoas”
A MÃE de Giovanna Tenório, Catarina Tenório, com uma foto da filha morta
Sistema eletrônico unindo
MPs ainda será criado
Em Alagoas, estado mais violento
do Brasil, segundo o Mapa
da Violência, lacunas na perícia
também prejudicam as investigações.
Em junho, um lençol de
criança amarrado ao corpo da
vítima esuas roupas eram as
principais provas, tanto da defesa
quanto da acusação, para um
crime que chocou oestado:
após sair da faculdade, a estudante
Giovanna Tenório apareceu
morta num canavial.
Alegando não ter lugar para
guardar o material, a direção do
IML jogou as provas no lixo.
— O trabalho do MP deve ser
casado com odapolícia. Se os
laudos tiverem falhas, toda ainvestigação
sai comprometida —
diz o promotor Flávio Gomes, do
Núcleo de Direitos Humanos.
Não são só as polícias que
não conversam entre si. As polícias
civil emilitar também
não têm sistema de troca de
dados, por exemplo, com o Ministério
Público daquele estado.
Oprimeiro estado em que
o MP terá acesso ao sistema de
informações da Secretaria estadual
de Segurança vai ser o
Rio. Isso deverá acontecer ainda
este ano, diz oprocuradorgeral
de Justiça do estado,
Cláudio Soares Lopes, vice-presidente
do Conselho Nacional
do Ministério Público (CNMP).
Há cerca de quatro meses, o
CNMP aprovou a criação de um
sistema eletrônico único para
tentar resolver outra lacuna: não
haver um mesmo sistema eletrônico
integrando os MPs de todos
os estados —apesar de crimes
como roubo de carga e tráfico de
drogas, armas e pessoas não respeitarem
fronteiras. Hoje, um início
do diálogo entre MPs existe
por meio do Grupo Nacional de
Combate às Organizações Criminosas
(Gncoc), parte do CNMP,
que coloca promotores de vários
estados em contato.
— A falta de informação leva a
situações como aque vimos este
ano na CPI do Tráfico de Armas
no Rio: a PF do Rio cadastra
hoje roubos de armas de 2004, e
há 150 mil armas apreendidas
num depósito da Polícia Civil
que o Exército não sabia que
existiam — diz o deputado estadual
Marcelo Freixo (PSOL-RJ).
—Integração de dados éessencial
para qualquer área. ■
CORPO A CORPO
REGINA MIKI
‘País ainda não
tem política de
segurança’
● Secretária nacional de
Segurança Pública do Ministério
da Justiça, Regina
Miki admite lacunas nos registros
de segurança e
adianta detalhes do sistema
de criminalidade anunciado
pelo ministro José
Eduardo Cardozo.
O GLOBO: Como será o índice
de criminalidade anunciado
pelo ministro?
REGINA MIKI: Estamos
planejando um sistema nacional,
com dados de todos
os estados. Aprimeira dificuldade
é padronizar os registros
de ocorrência, porque
cada estado faz de um
modo. Por que usamos dados
de 2008 no Mapa da
Violência? Porque os dados
padronizados que temos
são do SUS, então pegamos
emprestado dele. Mas você
acaba fazendo uma política
hoje com dados de 2008, é
gravíssimo. Asegunda dificuldade
é o gerenciamento:
o dado não é nosso, a gente
depende de cada estado.
Por isso, estamos desenvolvendo
um software captador
de dados, para que
ele busque nos sistemas de
cada estado os dados que
nos interessam, em vez de
criarmos mais um cadastro
para opolicial de cada estado
preencher.
● Quando o software começa
a operar?
REGINA: Isso ainda está
em gestação. Mas sem dúvida
toda a base de tecnologia
da rede InfoSeg seria
aproveitada. Queremos
que o software esteja em
teste até o fim deste ano.
● Se os estados não são
obrigados a mandar dados
para a InfoSeg, como garantir
que se integrarão ao
novo sistema?
REGINA: Realmente não
há essa obrigação, e éa
razão pela qual ainda temos
lacunas na alimentação
de informações. Na
InfoSeg, há estados que
deixaram de alimentar (a
rede) por um ano. Mas é
preciso se criar um mecanismo
de indução, para
que os estados tenham
de mandar esses dados.
Os estados têm de entender
que os queremos como
parceiros; que queremos
os dados não para
criar um ranking de locais
mais violentos que os
prejudique, e, sim, para
saber para onde é mais
necessário enviar recursos,
para que o estado
atinja determinada meta
de combate à violência.
● Como seria essa “indução”
aos estados?
REGINA: Condicionando
o recebimento de repasses
federais ao envio, pelo estado,
desses dados. Pode
ser repasse do Fundo Nacional
de Segurança Pública,
do Pronasci... Estamos
articulando isso.
● Hoje não há lista nacional
de foragidos ou desaparecidos.
Como fazer
segurança assim?
REGINA: Respondo com
outra pergunta: como está
a criminalidade no Brasil?
Ésó você ver. Épor essas
lacunas que opaís ainda
não tem uma política de
Estado de segurança.
Domingo, 28 de agosto de 2011
O GLOBO
OPAÍS ● 5
.
6 Domingo, 28 de agosto de 2011
O GLOBO
OPINIÃO
Momento ainda é de rigor monetário
OComitê de Política Monetária (Copom)
se reúne esta semana envolto
em um cenário com prognósticos
nada alentadores sobre a trajetória
das economias americana e europeias
nos próximos meses eanos. Como também
já surgiram algumas evidências de desaceleração
no ritmo de crescimento da economia
brasileira, acredita-se que esse quadro pesará
na decisão do Copom de interromper o
processo de aperto monetário.
De fato, não épossível ignorar a debilidade
das economias mais desenvolvidas eos
reflexos dessa anemia sobre os países emergentes.
No entanto, embora vários segmentos
da indústria brasileira estejam perdendo
fôlego diante da concorrência externa, há outros
setores da economia do país que permanecem
pressionados por uma demanda acima
de sua capacidade de oferta. Écaso dos
serviços, cujos preços vêm subindo bem acima
da média — na faixa dos 8% —, conforme
se pode observar no detalhamento dos índices
de inflação.
Tal pressão tem empurrado os índices de
preços ao consumidor para um
patamar nada confortável, em
torno do teto (6,5%) da meta de
inflação estabelecida pelo governo.
Até que a inflação recue
para percentuais mais próximos
do centro da meta (4,5%), o Banco
Central provavelmente manterá
a política monetária sob rédeas
curtas.
Ainda que as taxas básicas de
juros estejam em um nível incômodo
— e insustentável a médio
e longo prazos —, pior será se o
Brasil se acomodar com uma inflação
anual no teto da meta, sem qualquer
margem para acomodar eventuais choques
de oferta, de origem doméstica ou externa.
Altas doses de juros têm sido necessárias,
Pressões como
as do setor
de serviços não
aconselham
redução de juros
infelizmente, para ajustar o crescimento da
economia brasileira ao seu potencial, evitando-se
desequilíbrios nos preços. Éum fenômeno
que ainda decorre do longo
período de distorções acumuladas
pela economia do país,
e do qual resultou, por exemplo,
a dificuldade de desarmar os
mecanismos remanescentes de
indexação automática, até hoje
não totalmente desativados.
Outra dificuldade é o peso do
setor público na economia brasileira.
Os gastos públicos —
40% do PIB —são essencialmente
de custeio, rotineiros, e
de má qualidade, em alta percentagem.
Para quebrar essa rotina,
sustentada por elevadíssima carga tributária
(o que, por sua vez, onera os custos
de produção), o país necessita de reformas
estruturais, que mexem com interesses e pri-
vilégios de segmentos bem organizados da
sociedade. A resistência política e corporativa
a essas reformas tem sido muito grande, e
por isso elas caminham devagar.
Dessa maneira, o esforço para se dominar
ainflação acaba se concentrando nas mãos
do Banco Central, e ataxa de juros passa a
ser o principal instrumento de ataque. Reduzi-la
para padrões internacionais é, sem dúvida,
um vultoso desafio, que tem sido enfrentado
de forma gradual (basta se comparar
as taxas atuais com as de cinco, dez anos
atrás). Esse esforço teve de ser interrompido
por causa do repique da inflação, mas não
deixa de ser um alento que o governo esteja
cumprindo as metas de superávit primário
nas finanças públicas. Se perseverar nesse
caminho — mas reduzindo a contribuição ao
alcance das metas dadas pelo aumento da arrecadação
—, talvez haja condições para,
dentro de alguns meses, o Copom baixar um
pouco os juros.
Turquia mais ativa causa preocupação
ATurquia costumava aparecer no noticiário
internacional devido àsua
guerra com aGrécia pelo domínio
da ilha de Chipre; pela longa luta para
se aproximar da — e, se possível, entrar na
— União Europeia; e pelas bases da Otan em
seu território, de onde partiam os aviões da
coalizão que bombardeou o Iraque na Guerra
do Golfo (1991).
Hoje opaís é presença constante na mídia
devido, entre outros pontos, àbem-sucedida
experiência democrática sob governo islâmico,
à recuperação econômica e à dinâmica política
externa. Comandado pelo premier
Tayyp Recep Erdogan, o país se tornou importante
ator global, embora tenha embarcado
na canoa furada de uma mediação paralela
em relação ao programa nuclear do Irã, junto
com o Brasil, e em dissonância com a comunidade
internacional.
Ancara foi uma ponte entre Israel e países
árabes, até que as relações com oEstado judeu
piorassem após aoperação israelense
contra um navio turco em maio de 2010, com
nove ativistas mortos. Obarco
integrava uma flotilha que tentava
levar suprimentos à Faixa de
Gaza. Governada pelo partido islâmico
moderado AKP, a Turquia
já vinha se aproximando dos árabes,
que a viam com desconfiança
por sua condição de sucessora
do Império Otomano.
A Primavera Árabe exigiu de
Ancara jogo de cintura, pois
eram notórias suas relações com
ditadores como Mubarak, do Egito;
Kadafi, da Líbia; e Assad, da
Síria. Durante a revolta no Egito,
a Turquia foi o primeiro país a condenar Mubarak.
Depois, os turcos votaram a favor da
zona de exclusão aérea sobre a Líbia, para que
País assume papel
diplomático, mas
não esconde
avanço interno do
poder islâmico
aviões da Otan facilitassem o avanço dos rebeldes
contra Kadafi. No caso da Síria, adiplomacia
turca advertiu Damasco a “parar
imediatamente” de matar dissidentes.
A Turquia se tornou um exemplo
de como a democracia pode
se desenvolver numa região
marcada pelo autoritarismo. O
modelo turco se caracteriza pelo
papel dos militares como fiadores
do caráter laico do Estado e
da adequação do poder islâmico
ao sistema de pesos e contrapesos
da democracia.
Hoje, porém, um olhar para
dentro da Turquia causa preocupação.
Analistas têm criticado a
concentração de poderes nas mãos de Erdogan
a partir de uma ampla reforma do Judiciário
e de uma crise que resultou na renúncia
de toda a cúpula militar e permitiu, pela primeira
vez, que ogoverno civil nomeasse os
comandantes militares — o que, em si, é algo
positivo. Mas o que se teme, com o surgimento
de uma “elite do AKP”, éoavanço da islamização
e a implosão do papel dos militares
como guardiães do Estado laico, legado do
fundador da república turca, Kemal Ataturk.
Um indicador preocupante é ofato de a
Turquia ser hoje, segundo “Newsweek”, o país
com mais jornalistas atrás das grades — cerca
de 70, mais do que China e Irã. Críticas ao AKP
não são toleradas. Arevista comenta: “Ataturk
transformou a Turquia do alto para baixo
e avoltou para o Ocidente. Erdogan está
transformando o país de baixo (ele tem grande
apoio popular) para cima, e inclinando-a
na direção dos vizinhos islâmicos.” Uma das
consequências previsíveis desse jogo de xadrez
é tornar mais difícil o ingresso da Turquia
na União Europeia.
E agora, Lula?
JUAN ARIAS
Os que mais
apoiam Dilma
são os que mais
criticavam o
antecessor
Lula está numa encruzilhada
política. Lutou contra seu
próprio partido para fazer de
Dilma Rousseff sua sucessora.
Conseguiu. E pediu-lhe que mantivesse
uma boa parte dos ministros
de seu último governo. Ela o fez. Só
que, aos oito meses de governo, sua
pupila pôs na rua quatro desses ministros,
três acusados de corrupção
e ooutro após ter criticado publicamente
as duas ministras mais importantes
nomeadas pela presidente.
Dilma está ganhando por esse motivo
o título de heroína
contra a corrupção política,
eestá surgindo um
movimento em todo o
país de simpatia eapoio
a sua vassoura ética. Curiosamente,
os que mais
a apoiam são precisamente
os que mais criticavam
os governos de
seu antecessor. Defendem-na,
inclusive, líderes
históricos da oposição,
como o ex-presidente social-democrata
Fernando
Henrique Cardoso e a ecologista Marina
Silva, que deixou o partido de
Lula e obteve 20 milhões de votos em
sua disputa presidencial com Dilma.
Paradoxalmente, tudo isso está
sendo utilizado para atacar quem tinha
confiado em Dilma como a melhor
candidata para suceder-lhe: Lula.
E já se fala de uma “herança maldita”
que ele teria deixado àpresidente
com esses ministros corruptos,
que ela teve de afastar de seu governo.
A pergunta é óbvia: e agora, o que
fará Lula? E a resposta não é fácil. Este
gênio da política não aparecerá
nem um minuto em conflito com sua
herdeira. De fato, já comentou ser
“normal” que um presidente prescinda
dos colaboradores que não funcionam,
como ele mesmo fez em seus
dois mandatos. Substituiu a dois de
seus mais importantes ministros —
ambos acusados de corrupção: José
Dirceu, da Casa Civil, e Antonio Palocci,
da Economia.
Lula nunca porá obstáculos à cruzada
contra a corrupção de Dilma, que está
recuperando os votos da classe média
que ele havia perdido. Há até quem
assegure que se essa operação de limpeza
— que já começa a
ser comparada à italiana
“Mãos Limpas” — der frutos
à presidente, Lula subirá
no barco e até poderia
tomar o timão.
Não falta tampouco a
maquiavélica hipótese
de que ambos estariam
de acordo: Dilma faria a
limpeza que ele não quis
ou não pôde fazer para
não comprometer a governabilidade,
ao enfrentar
os partidos aliados
mais corruptos, ao mesmo tempo
em que ela supriria com sua defesa
da ética o que lhe falta em relação
a Lula: o carisma pessoal e a destreza
em equilíbrios políticos.
A presidente conquistaria a classe
média, porque o mundo dos pobres
nunca deixará de ser lulista, como
apontou FH a seu partido, o PSDB. Contudo,
o candidato com mais possibilidades
de enfrentar Dilma em 2014, o governador
de Minas Gerais, Aécio Neves,
do PSDB, afirmou que a cruzada da presidente
é só “slogan de campanha” e o
que conta para um governo são “as
grandes reformas” que, presa em sua
luta contra a corrupção, Dilma não está
fazendo.
A grande incógnita — que ficará ainda
por muito tempo sem resposta — é
se apresidente pensa, ou não, em se
apresentar àreeleição em 2014, ou somente
estaria preparando, com um
acordo prévio, o caminho para que Lula
volte, posto que ele parece estar já
em campanha eleitoral novamente. Lula
insiste que Dilma não será candidata
em 2014 somente “se ela não quiser”. O
analista da “Folha de S.Paulo” Fernando
de Barros e Silva escreveu há dias que
Cavalcante
Lula disse apenas o óbvio. Que a notícia
seria: “Dilma não se candidatará”, e
que dizer “se ela não quiser” é o mesmo
que dizer “se eu não quiser”.
Osenador Jarbas Vasconcellos,
do partido da base aliada PMDB,
mas que sempre se declarou independente,
opina que a presidente é
candidatíssima para 2014 e, aseu
ver, “está fazendo o que deve fazer:
diferenciar-se de Lula”. Segundo
ele — um dos senadores que criaram
um movimento de apoio à presidente
—, o que mais pode diferenciar
Dilma de Lula ante aopinião
pública ésua posição de intransigência
ante odesperdício de
dinheiro público derivado da corrupção
num país em que, como escreveu
ironicamente o maior romancista
brasileiro, João Ubaldo, o
sonho de muitas famílias é poder
ter um “corrupto” para poder enriquecer
com o dinheiro público.
Porque, ironiza Ubaldo, as pessoas
pensam que, se o dinheiro é “público”,
é de todos.
JUAN ARIAS é jornalista e correspondente
do El País (Espanha) no Rio.
ORGANIZAÇÕES GLOBO
Presidente: Roberto Irineu Marinho
Vice-Presidentes: João Roberto Marinho • José Roberto Marinho
OGLOBO
é publicado pela Infoglobo Comunicação e Participações S.A.
Diretor de Redação e Editor Responsável: Rodolfo Fernandes
Diretor de Redação Adjunto: Ascânio Seleme
Editores Executivos: Luiz Antônio Novaes, Pedro Doria,
Helena Celestino e Paulo Motta
Editores - O País: Silvia Fonseca; Rio: Adriana Oliveira;
Economia: Cristina Alves; O Mundo: Sandra Cohen;
Esportes: Antonio Nascimento; Segundo Caderno: Isabel De Luca;
Imagem: Ricardo Mello; Fotografia: Alexandre Sassaki;
Ciência: Ana Lucia Azevedo; Saúde: Marília Martins;
Arte: Léo Tavejnhansky; Opinião: Aluizio Maranhão
Rua Irineu Marinho 35 - Cidade Nova - Rio de Janeiro, RJ
CEP 20.230-901 • Tel.: (21) 2534-5000 • Fax: (21) 2534-5535
Impressão: Rod. Washington Luiz 3.000 - Duque de Caxias, RJ
CEP 25.085-000 • Tel.: (21) 2534-5000
FALE COM O GLOBO
Classifone: (21) 2534-4333 Para assinar: (21) 2534-4315 ou oglobo.com.br/assine Geral e Redação: (21) 2534-5000
AGÊNCIA O GLOBO
DE NOTÍCIAS
Venda de noticiário:
(21) 2534-5656
Banco de imagens:
(21) 2534-5777
Pesquisa:
(21) 2534-5779
Atendimento ao estudante:
(21) 2534-5610
PRINCÍPIOS
EDITORIAIS DAS
ORGANIZAÇÕES
G L O B O
http://glo.bo/pri_edit
P U B L I C I D A D E
Noticiário: (21) 2534-4310
Classificados: (21) 2534-4333
Jornais de Bairro:
(21) 2534-4355
Missas, religiosos e fúnebres:
(21) 2534-4333
— Plantão nos fins de semana
e feriados: (21) 2534-5501
Loja: Rua Irineu Marinho 35,
Cidade Nova
International sales:
Multimedia, Inc. (USA)
Tel: +1-407 903-5000
E-mail:
adsales@multimediausa.com
S U C U R S A I S
Belo Horizonte:
(31) 3298-9300
fax: (31) 3298-9305
Brasília:
(61) 3327-8989
fax: (61) 3327-8369
Salvador:
(71) 243-3944/243-3387
fax: (71) 243-3587
São Paulo:
(11) 3226-7888
fax: (11) 3226-7882
A S S I N ATU R A
Atendimento ao assinante
Rio de Janeiro e principais
capitais: 4002-5300
Demais localidades:
0800-0218433 — Segunda a
sexta: das 6h30m às 19h —
Sábados, domingos e feriados:
das 7h às 12h
Assinatura mensal com débito
automático no cartão de
crédito, ou débito em conta
corrente (preço de segunda a
domingo) RJ/MG/ES:
Normal: R$ 82,33
Promocional: R$ 62,90
VENDA AVULSA
ESTADOS
RJ, MG e ES
SP
DF
Demais estados
DIAS ÚTEIS
2,50
3,00
3,00
4,50
DOMINGOS
4,00
4,50
6,00
9,00
E X E M P L A R E S
ATR A S A D O S
Rua Marquês de Pombal 75
(das 9h às 17h). Preço:
o dobro do de capa atual
ATE N D I M E N T O
AO LEITOR
plantao@oglobo.com.br
DEFESA DO
C O N S U M I D O R
As reclamações devem
ser enviadas através da
internet: oglobo.com.br/
defesadoconsumidor
O GLOBO É ASSOCIADO:
SIP
WAN
Domingo, 28 de agosto de 2011
O futuro
em jogo
LISZT VIEIRA
Quando a Conferência de
Meio Ambiente e Desenvolvimento
das Nações
Unidas, a chamada Rio-
92, foi aprovada na ONU,
no ano de 1988, o governo dos EUA
estava interessado em mostrar ao
mundo que os países socialistas
destruíam omeio ambiente muito
mais do que os países capitalistas
e não dispunham de regulamentos
e instituições ambientais de fiscalização
e controle.
Ocorre que, posteriormente à
convocação da Conferência Rio-92,
caiu o Muro de Berlim em 1989 e
desmoronou a União Soviética em
1991. Os EUA, então, perderam o
interesse na Conferência, já que os
antigos países socialistas caminhavam
em direção ao capitalismo.
Quem acabaria na berlinda e
seria alvo de críticas seria principalmente
os próprios EUA.
Assim, o governo norte-americano
pisou no freio, mas não conseguiu
mais evitar arealização da
Conferência. Procuraram esvaziála
econseguiram reduzir o alcance
da maioria das resoluções. Foram
aprovadas Resoluções sobre
Convenções do Clima, Biodiversidade,
Agenda 21 Global, um Protocolo
sobre Florestas e uma Carta
da Terra.
Os grandes temas da Rio-92,
principalmente mudanças climáticas
e biodiversidade, passaram a
ser discutidos anualmente no âmbito
da então criada Comissão de
Desenvolvimento Sustentável e
nas chamadas Conferências das
Partes (COP).
Nos últimos vinte anos, foram
realizadas 16 Conferências de Mudanças
Climáticas e10Conferências
de Biodiversidade. Nesses encontros
internacionais, sobraram
intenções e faltaram comprometimentos
com metas concretas.
Mesmo aquém das expectativas,
a COP da Biodiversidade avançou
mais do que a COP do Clima, onde
o impasse é maior, principalmente
no que se refere a taxas sobre
emissão de carbono e metas e prazos
para a redução das emissões.
Mas oBrasil está fazendo a sua
parte: anunciou metas concretas
na política nacional de mudanças
climáticas e reduziu as emissões
de gases-estufa. Possui matriz
energética renovável. O desmatamento
caiu de 27.772 km2 em 2004
para 6.451 km2 em 2010. Não se
pode, porém, esquecer que o quadro
éalarmante: ao longo do tempo,
já foram destruídos 20% da
Amazônia, 93% da Mata Atlântica,
mais de 50% do Cerrado eda Caatinga.
Por decisão da Assembleia Geral
das Nações Unidas, a Conferência
Rio+20, a ser realizada no Rio
de Janeiro nos dias 4a6dejunho
de 2012, vai tratar da “economia
verde no contexto do desenvolvimento
sustentável e da erradicação
da pobreza” e do “quadro institucional
para o desenvolvimento
sustentável”. A situação é grave: é
praticamente consenso na comunidade
científica que o planeta está
chegando a seus limites.
Entretanto, as expectativas em
relação àConferência Rio+20 não
são muito animadoras. Se os países
não chegaram a acordos viáveis
nesses vinte anos de debates,
dificilmente chegarão a acordos
significativos na Rio+20, que não
tem caráter resolutivo e — como
toda conferência da ONU —só toma
decisões consensuais.
Mas é inegável que se trata de
uma oportunidade histórica que
não deve ser desprezada. Mesmo
que não seja uma conferência de
cúpula, com a presença de chefes
de Estado, a Rio+20 oferece ao Brasil
uma oportunidade de exercer liderança
na luta pela proteção global
do meio ambiente.
Em 1992, ogoverno brasileiro
não aceitou sediar no Rio de Janeiro
a recém-criada Comissão de Desenvolvimento
Sustentável, temendo
críticas ao desmatamento
na Amazônia.
Mas hoje, oBrasil — maior país
megadiverso do planeta — está
preparado para assumir maiores
responsabilidades no âmbito internacional.
Esta será sem dúvida
uma excelente oportunidade para
o Brasil ampliar sua crescente liderança
no cenário mundial assumindo
uma posição pró-ativa na defesa
da sustentabilidade global.
LISZT VIEIRA é professor da PUC-Rio e
presidente do Jardim Botânico.
Confissão. Meu primeiro voto
foi para o Jânio Quadros. Não
espalhe. Parafraseando o
samba antigo: se eu soubesse,
naquele tempo, o que sei agora, eu
não seria este ser que tenta se explicar
e explicar as anomalias da política brasileira.
Que me lembre, estava-se votando
contra acorrupção do governo
Kubitschek, que Jânio varreria. Mas Jânio
não era só o anti-JK. Seu sucesso se
devia em grande parte à sua personalidade
diferente, justamente ao fato de
ser uma anomalia. Como aconteceria
anos depois com oCollor, um Jânio
Quadros sem a caspa. A suspeita de
que fosse meio louco era uma credencial.
O Brasil precisava de um presidente
não convencional para fazer o
que os convencionais não faziam. Mas
Jânio foi anômalo demais.
Reclamações
JOÃO UBALDO RIBEIRO
Acabo de passar os olhos nos
jornais e, naturalmente, li
muito sobre corrupção,
mas bem menos que em
dias anteriores. É natural, não só foi
feita uma faxina, ainda que meio estranha,
como, principalmente, o assunto
começa a ficar velho. Da mesma
forma que em relação a um produto
qualquer, cansamos do velho e
queremos novidades. O noticiarista
tem de matar um leão por dia, se quiser
continuar tendo leitores. E aí vem
esse papo de corrupção, espocam
notícias efofocas irrequietas etodo
mundo entra no bonde, mas não
completa a viagem, que acaba ficando
chata mesmo, de tão repetitiva.
Isso se deve em grande parte ao fato
de não acontecer nada com os corruptos,
a não ser um comentário de
um jornal ou outro. Até quando parece
que pegaram mesmo um corrupto,
éforo especial pra cá, é recurso
de todo tipo pra lá e o fato é que o
bicho continua próspero, meio gordote
e feliz por nunca ter trabalhado
e ganhar uma bela aposentadoria de
deputado, para não falar nas “colocações”
de parentes, protegidos e assemelhados.
Mesmo que houvesse punição, o
Brasil é muito avaro com elas. De vez
em quando se anuncia que Fulano foi
condenado a, sei lá, seis anos de cadeia,
mas logo se descobre que, se
valendo disso e daquilo, estará em
regime semiaberto dentro de alguns
meses epraticamente solto. Outro
dia, muitos de vocês devem ter visto
na TV um rapaz sorridente confessar
numa delegacia de polícia que foi
coautor ou cúmplice de um assassinato.
Mas, como o próprio delegado
explicou, ele se apresentou espontaneamente,
era réu primário, patatipatatá
e foi imediatamente solto, só
faltando um abraço no delegado e
um aceno para as câmeras. O mesmo
ocorre com oindivíduo que enche a
cara, pega ocarro, faz uma série de
barbeiragens embriagadas emata
quatro pessoas de uma vez. Réu primário,
coisa etal, paga fiança, responde
ao processo em liberdade e
depois lhe dão as colheres de chá legais
que lhe permitirão matar mais
quatro ou cinco daí a uns dois anos.
O GLOBO
VERISSIMO
Jânio
Apesar de algumas mudanças recentes,
a tendência tem sido procurar
as “causas” do comportamento
antissocial, oque acaba por levar à
conclusão de que ninguém é culpado
ou responsável por nada. O culpado
é a causa, não o agente do delito. E a
função da pena é a “recuperação” do
condenado, mesmo por crimes muito
graves, sua “reinserção na sociedade”.
Creio que continua politicamente
correto pensar assim, mas já há especialistas
que acham que essa “recuperação”
é no mais das vezes falaciosa.
E a severidade da punição tem
passado aser vista como básica,
mesmo para a obtenção de alguns casos
de recuperação. Mas, no Brasil,
as penas são leves e suavizáveis a
pretexto de praticamente qualquer
coisa. Cala-te, boca, mas não posso
evitar a suposição, oxalá falsa, de
que, com tanto legislador pendurado
numa ilegalidadezinha,
seria uma imprudência
da parte deles estabelecer
penas pesadas para
— quem sabe quando o
Cão atenta? — um delito
pelo qual vários ou
muitos deles mesmos
podem vir a ser condenados.
A repercussão do assassinato
da juíza Patrícia
Acioli foi vergonhosa
para quem quer que
seja cioso das instituições
republicanas e compreenda a
gravidade desse ato. O fato teve e ainda
está tendo cobertura ampla. Mas
nenhum governante chamou a atenção
para a agressão às instituições assim
cometida, ao que parece nenhuma
autoridade foi ao sepultamento da
juíza e tudo o que ouvimos dessas autoridades
foram as habituais declarações
de lamentável isso e aquilo e
providência disso e daquilo. Agora
descobre-se que as balas usadas para
matar a juíza eram munição da Polícia
Militar, certamente deflagradas por
armas também da Polícia Militar. Enfim,
descobre-se que agentes da lei
mataram uma magistrada enão há a
indignação, o clamor e o vigor de reação
com que um fato dessa magnitude
exigiria eque ajudaria na sua avaliação
adequada por parte da população
atingida, ou seja, nós todos, de
Apareceu
até uma
novidade,
o medo da
ambulância
Renato Carvalho
uma forma ou de outra. Aqui é praticamente
apenas mais um simples fato
policial — lamentável etc. Claro que a
comparação é falha, mas imagino um
juiz americano fuzilado com armas e
munições de policiais. Aqui é tratado
como ocorrência normal e vem o medo
de que se torne corriqueiro.
Mais um medo, entre todos com
que aprendemos a conviver e já nem
notamos. Apareceu até uma novidade,
o medo da ambulância. No Rio foi
descoberto um ramo de comércio
que já deve estar implantado também
em outras cidades, considerando
a rapidez com que essas coisas se
espalham, pois obrasileiro émuito
observador eatento anovas descobertas.
Agora o sujeito passa mal —
como sempre em plena madrugada
—eaí acandidata aviúva telefona
aflita para uma ambulância. Os operadores
da ambulância então levam o
doente, não ao hospital
que ele quer ou que
mais convém a seu estado.
Levam oinfeliz
para o hospital ou clínica
que os remunerarem
de acordo com uma
complexa tabela. Aclínica
está sem freguesia
— talvez porque hajam
morrido todos os seus
pacientes — eaípaga
um modesto estipêndio
aos condutores da ambulância,
para refazer a
clientela. Claro, pensei logo na possibilidade
de uma clínica dessas contratar
transplantes, caso em que o
paciente acordaria sem um rim, num
hospital desconhecido, que ainda cobraria
pela intervenção. Talvez vocês
achem isto um exagero, mas puxem
pela memória, porque já devem ter lido
sobre coisas piores.
Escrevo sobre estes assuntos e
penso novamente na corrupção. Há
quem considere a corrupção um problema
político menor ou que se trata
de uma questão de moralismo. Não é
nem uma coisa nem outra, é por causa
dela que enfrentamos os problemas
que mencionei etantos outros
com que também sofremos. E ter senso
de moralidade distingue os homens
dos bichos.
JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.
OPINIÃO ● 7
Não sei se votei na figura excêntrica
ou na sua promessa de limpar a sujeira
de Brasília. A sujeira, vista desta distância
no tempo, não parece tanta assim, a
ponto de justificar oJânio. Não demorou
para a História — ou a falta de memória
—absolver JK, que hoje éhomenageado
como um presidente exemplar,
e foi até citado como tal no discurso de
posse do Fernando Henrique. Mas na
época foi a corrupção do seu governo
que levou muitos eleitores — inclusive
estreantes como eu —avotar na vassoura.
Mais intrigante do que obreve
governo do Jânio e oentusiasmo da
maioria do eleitorado de então pelas
suas esquisitices, que já prefiguravam o
que viria depois, foi essa absolvição do
Juscelino pelo tempo, essa sua lenta
transformação de corrupto em exemplo.
Talvez enaltecer JK seja uma espécie
de penitência por termos acreditado
no Jânio, sua alternativa maluca. Eu não
posso rasurar meu currículo de eleitor,
mas a nação pode corrigir suas opções
do passado, esquecendo-as. Também
não perdoamos o Collor?
Ou talvez se tenha chegado à conclusão
que para Juscelino fazer o que fez,
industrializando opaís, construindo
Brasília etc., apromiscuidade de governo
com empreiteiras e empreendedores
era quase obrigatória e, em retrospecto,
louvável. O governo só precisava
se preocupar com eventuais críticas
da UDN e de parte da imprensa, a
Polícia Federal da época não se metia
nessas coisas. Portanto do governo JK
se podia dizer que não era corrupto,
era despreocupado. Fomos injustos
com ele. Pela minha parte, um pouco
atrasado, peço desculpas.
Fumaça
nas ruas
MARCOS MORAES
Quando caminho pela rua, a fumaça
ainda incomoda. Só que,
agora, o cheiro não é só do tabaco,
mas de cravo, menta, canela
e tantas outras substâncias
adicionadas ao cigarro. Nos últimos
20 anos, a prevalência de fumantes
no Brasil caiu de 32% para 17%, oque
representa quase 10 milhões de dependentes
a menos no país. A indústria do
tabaco tem investido para reverter o
quadro e conter a queda nas vendas.
A população de consumidores de cigarro
está envelhecendo ou morrendo.
A maioria de fumantes, concentrada na
faixa etária entre 18 e 35 anos na década
de 1980, agora já está em outra faixa
de idade, entre 30 e 59 anos. A indústria
agiu para criar um novo exército de dependentes.
A adoção de aditivos aos cigarros
é a estratégia usada para atrair
novos usuários.
Os aditivos são substâncias utilizadas
para agravar a dependência e minimizar
o gosto do tabaco e dos produtos
contidos na fumaça. Cravo, menta e
açúcar são alguns dos mais usados. Entre
2008 e 2010, 20 novas marcas de cigarro
com sabor entraram no mercado,
crescimento de 100%.
O uso de aditivos também causa a
sensação de estar consumindo um cigarro
menos nocivo, o que é uma mentira.
Pelo contrário, o sabor adocicado
esconde a nicotina, a principal causadora
da dependência, e a queima de algumas
dessas substâncias pode trazer
sérios danos asaúde. Oaçúcar, por
exemplo, quando queimado, produz o
acetaldeído, composto altamente tóxico.
Juntando-se os aditivos ao alcatrão,
conjunto de substâncias causadoras de
câncer e enfisema pulmonar já presente
em todos os cigarros, o poder tóxico
e de dependência é potencializado.
O cigarro, com ou sem sabor, possui
66 substâncias cancerígenas. Pesquisas
mostram que 90% do número de casos
de câncer de pulmão têm o cigarro como
causa direta da doença. Essas informações
são hoje extensamente divulgadas
e conhecidas pela população. Com
as severas restrições à publicidade e o
amplo conhecimento dos males do cigarro,
aopção pelos aditivos torna o
cenário ainda mais trágico.
A restrição aos aditivos em cigarros
já é alvo de tentativa de regulação pela
Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
Em fevereiro, a Anvisa abriu consulta
sobre o assunto. Indústria e agricultores
de tabaco se mobilizaram para retardar
a aplicação da medida, enviando
mais de 200 mil sugestões àagência.
Como adecisão só pode ser aprovada
depois da análise do material gerado
pelo debate, as empresas do tabaco
conseguiram adiar a restrição.
O Conselho Nacional para Implementação
da Convenção-Quadro para o
Controle do Tabaco já apresentou dado
que permite afirmar que o tabagismo é
uma doença pediátrica: 90% dos fumantes
regulares começam a fumar antes
dos 18 anos de idade.
MARCOS MORAES é presidente do
Conselho de Curadores da Fundação do
Câncer e da Academia Nacional de
Medicina.
OGLOBO NA INTERNET
OPINIÃO Leia mais artigos
oglobo.com.br/opiniao
.
8 ● OPINIÃO Domingo, 28 de agosto de 2011
O GLOBO
DOS LEITORES
Pelo e-mail, pelo site do GLOBO, por celular e por carta, este é um espaço aberto para a expressão do leitor
A geografia da corrupção
● Ageografia política de Brasília está totalmente mudada. Os alpinistas-congressistas
não se restringem mais às caminhadas entre
a “planície” e o “planalto”. A meta atual é escalar o Everest da
corrupção. Todos querem chegar ao topo da cordilheira de dinheiro
público. Querem conquistar as vias de acesso ao cume da
montanha de impostos arrecadados. O prêmio? Abrir caminho para
que os seus seguidores possam vislumbrar ohorizonte das
próximas eleições.
● A corrupção não foi, certamente, inventada
por Lula, mas prosperou celeremente
durante seu governo, graças à impunidade
eaos afagos do ex-presidente aos companheiros
que, embora transviados, representavam,
acima de tudo, apoio político.
Esperamos que a presidente Dilma recupere
adignidade perdida por nosso país,
confrontando o fisiologismo, o “toma-ládá-cá”,
a forma infame de se fazer política
no Brasil e que apalavra “governabilidade”
não se transforme em sinônimo de
“permissão para roubar”.
VLADIMIR MOREYRA DUARTE
Miguel Pereira, RJ
● Oprocesso de limpeza ética que a presidente
Dilma está fazendo coloca-a numa
difícil escolha de Sofia. Dilma foi eleita,
apoiada pela popularidade de Lula, que,
por sua vez, em nome de uma “governabilidade
política”, abdicou de todas as suas
convicções morais e éticas, fazendo vistas
grossas para todos os esquemas fraudulentos
ocorridos durante seus oito anos
de governo. Dilma, ao que parece, está entre
acruz eaespada. Portanto, presidente,
que tal esta máxima para encorajá-la de
vez aprosseguir na sua faxina ética:
“Quando temos que assumir nossas responsabilidades,
existe uma boa chance de
fazermos muitos inimigos, como, também,
existe uma grande possibilidade de virmos
a perder alguns amigos.”
ARISTON CARVALHO OLIVEIRA
Rio
Ordem e retrocesso
● A gente faz uma força danada para acreditar
que o Brasil éum país onde o crime
não compensa, mas depois de ler a respeito
do banqueiro condenado que vai passar
“uns dias em casa”, sobre os remédios apodrecendo
em Teresópolis, sobre amorte
da juíza Patrícia Acioli e sobre os supersalários
do Senado, temos a nítida impressão
de que é exatamente o contrário.
RICARDO C. SIQUEIRA
Niterói, RJ
Os eleitos
políticos
aprendem
apenas a dizer
“sim” para o
partido e “não”
para a oposição
— Mencio Cogliatti
‘O meu Brasil’
● O objetivo dos eleitos políticos é apenas auferir
altos salários, não interessando se o povo
continua sem hospitais, sem verba para compra
de remédios, sem salários dignos (bombeiros,
professores etc.), em especial, os proventos
cada vez mais minguantes dos aposentados.
Os rombos (INSS e outros) continuam.
Para o povo, só esmola. Inimigos do Brasil são
os que vêm para governar em proveito próprio,
trazendo consigo amigos, parentes etc., e
não exercem afunção para aqual foram eleitos.
Todos que se empregam enfrentam uma
prova, mas os que se elegem não provam se
têm o conhecimento necessário para assumir
esse “emprego” público e político. Aprendem
apenas a dizer “sim” para o partido e “não” para
a oposição, pois grande parte deles não sabe
sequer o que está aprovando. Para que tantos
senadores, deputados, vereadores? Não
bastaria somente aqueles com capacidade de
assumir, discutir e aprovar a sobrevivência de
seu povo eoprogresso de seu país? Assim,
todos os brasileiros poderiam dizer com orgulho
e patriotismo: “Esse é o meu Brasil.”
MENCIO COGLIATTI
Rio
Ricos e pobres
● Os ricos do Brasil são protegidos pelos governos
que se dizem populares e esquerdistas.
Um tostão para o pobre; um milhão para
o rico. Um funcionário do Senado do Sarney
ganha mais do que Obama. Aliados nos
trambiques, muitos políticos egrandes empresários
roubam o meu, o teu, o nosso suado
dinheirinho e nunca devolvem. Pena máxima,
ainda que rara, é aposentadoria com
salário integral. Os pobres infelizes bilionários
americanos e franceses pedem a seus
governos para serem taxados mais pesadamente
para ajudar seus países a sair do buraco.
Que atraso de vida!
PIERO BONDI
Rio
Arrecadar sempre
● A demagogia dos políticos é impressionante:
fazem gentilezas com o chapéu dos outros.
Oferecem várias vantagens para os idosos,
tais como prioridade nas filas, gratuidades
em passagens de ônibus etc. Mas, impiedosamente,
não criam uma legislação isentando
o idoso do Imposto de Renda, ignoram
que é exatamente afase em que mais ocidadão
tem gastos com tratamentos de saúde.
Ou seja, ao idoso, todas as benesses, desde
que não mexa na arrecadação de impostos.
ENORÊ ROBERTO RODRIGUES
Maricá, RJ
● É interessante quando nós, pequenos mortais,
apresentamos uma variação patrimonial
adescoberto (incompatível com arenda declarada)
— a Secretaria da Receita Federal cai
logo em cima e nos autua com juros, multa etc.
Todo dia, os jornais noticiam políticos, traficantes,
empresários e policiais com patrimônio
totalmente incompatível com a sua renda.
Gostaria de saber o que acontece com eles.
Pelo visto, nada, pois continuam agindo como
se não tivessem medo. Fiscalização e autuação
neles, pois a Carta Magna diz que todos
são iguais perante a lei: ou não?
WAGNER LOPES DA SILVA
Rio
Colapso na saúde
● Éuma pouca vergonha ogasto diário com a
saúde de cada brasileiro: R$ 1,82! Agora, elegeram
o bode expiatório: os médicos são os responsáveis
pelo caos. O profissional sai de casa
pela manhã para ohospital ecorre o risco de
ligar para seus familiares à noite dizendo que
está preso. Mas os devoradores do dinheiro público
continuam soltos eesbravejando em tribunas.
A continuar como está, em breve veremos
propagandas do tipo: “Curandeiro Amariz,
o homem que cura dos pés ao nariz”; “Se você
espera bebê, procure a vovó Tina. Ela apara
com carinho oseu menino ou a sua menina”;
“Se você está doente, não tome remédio. Procure
o templo do Arédio”; “Contra qualquer
dor, vovô benzedor”. Já tem gente por aí oferecendo
“meias que curam”.
JEOVAH FERREIRA
Brasília, DF
Bebês x cadeiras
● Estou com um bebê de um mês e preciso levá-lo
ao pediatra, vacinação etc. Fazemos esses
deslocamentos de carro,na cadeirinha obrigatória,
e, como toda criança, meu filho dorme na
mesma, durante os trajetos. A quantidade de
buracos nas ruas é tanta que tenho que ficar
segurando a cabecinha dele o tempo todo, de
tanto que ocarro sacoleja. Pergunto às autoridades:
a cadeirinha é obrigatória para o transporte
de crianças, e fornecer um asfalto decente
não é? Tomem vergonha, governantes!
FLAVIA CLARO DA SILVA
Rio
Vida selvagem
RONEY GAMA DA COSTA
Niterói, RJ
● Somos indefesos como formigas trabalhando
numa calçada. Todo dia acordamos evamos
trabalhar, ou nos divertir, ou visitar alguém,
estudar. Eosbandidos também acordam
evão roubar alguém. Nós, sem armas,
os bandidos com todo tipo de armamento em
busca da caça: nós. Enquanto isso, a carreira
de formigas numa calçada trabalhando. Algumas
serão pisoteadas, algumas não sobreviverão.
O mesmo acontece conosco, honestos
trabalhadores. Amanhã, os jornais terão novas
vítimas. Todo dia é igual: algum de nós
não sobreviverá. Vida selvagem a nossa.
MARIO PAULO TIENGO GOLDSTEIN
São Pedro da Aldeia, RJ
● O aumento de violência no Leblon já vem
sendo percebida nas ruas, por comentários de
moradores e seus vizinhos. São assaltos de dia
e roubos e arrombamentos de residências. O
policiamento ostensivo é deficiente. São muitos
os delitos praticados, inclusive, nas proximidades
da 14 a - DP, como foi o caso da atriz Danielle
Winits, atacada na Rua Almirante Guilhem, às
17h. Muitos desses crimes, como os cometidos
contra residências, são praticados por quadrilhas,
e deve a Polícia Civil investigar, identificar
edesarticular. Ao contrário, os índices só aumentarão,
como já vem ocorrendo.
ALEXANDRE SOARES DOS SANTOS
Rio
● Os assaltos na Zona Sul voltaram com tudo;
nas Zonas Norte, Oeste e na Região Metropolitana,
nunca recrudesceram. Durou muito
pouco a ilusão de segurança das UPPs: apenas
o tempo de os marginais desalojados perceberem
que a preocupação das autoridades era
com a exibição ostensiva de armas, não com
as ações criminosas propriamente ditas. Para
o mundo, preocupado com a Copa e as Olimpíadas,
as imagens do arsenal impressionam.
Já acrônica diária da violência a que o cidadão
está submetido, essa não repercute.
ARTHUR DE SOUZA BRASIL
Rio
● Esta semana, houve mais um assalto em
plena luz do dia no Rio, desta vez, a uma van
com turistas, em hora e local de movimento.
Façam um levantamento dos últimos 30 dias
e vejam quantos assaltos/tentativas e outros
delitos ocorreram. Diariamente, há no noticiário
pelo menos um crime. Ou de assalto,
ou de homicídio, ou de latrocínio. Onde está a
segurança pública? Querem saber? Prestando
serviços particulares. E não é só nas horas de
folga, conforme decreto neste sentido. É quase
direto, pois o policial prefere pagar para
um colega tirar seu serviço, pois sabe que no
particular vai ganhar mais. Esta é a segurança
pública do governo Sérgio Cabral. Enganou
muito bem no primeiro mandato —aquem
não o conhece —, reelegeu-se e agora taí.
PANAYOTIS POULIS
Rio
● A região da chamada Grande Tijuca tem um
efetivo maior de policiais devido ao seu notório
histórico de violência. Todos se lembram
dos recentes episódios em que traficantes
das inúmeras favelas tijucanas mandavam
comerciantes fecharem as portas como forma
de luto pela morte de comparsas. Ninguém se
esquece (ou não deveria se esquecer) da morte
da menina Gabriela, na Estação São Francisco
Xavier do metrô, edajovem estudante
baleada no Campus Rio Comprido da Universidade
Estácio de Sá. Também está na memória
de todos ohelicóptero da polícia abatido
por traficantes do Morro dos Macacos, cuja
imagem foi veiculada no mundo inteiro. Sem
falar nos meliantes que ainda assaltam de bicicleta
nas imediações da Praça Saens Peña,
nos arrastões na Avenida Vinte eOito de Setembro
enos constantes tiroteios que ocorriam
nos morros do Turano, Salgueiro, Borel,
Formiga, Casa Branca, Chacrinha, Andaraí
etc. Por todos esses motivos, é justa a presença
maciça de policiais na Grande Tijuca.
GUILHERME SALOMÃO CASTELLO BRANCO
Rio
NA INTERNET E NO CELULAR
.........................................................................................................................................................................................................................
..........................................................................................................................................................................................................................
NoTwitter
Seria reflorestamento?
(@DelPalhano)
RT @JornalOGlobo: Homem é
preso na Bahia acusado
de plantar 70 mil pés de
maconha.
Palmas! (@LeonardoRFarias)
RT @JornalOGlobo: RT
@DigitaleMidia: Hacker de
iPhone começa, aos 19 anos,
estágio na Apple.
Ladrão que rouba ladrão tem
..........................................................................................................
MAIS COMENTADA
● A declaração de FH de que o governo de Lula foi
responsável por consolidar o que chamou de
“corrupção sistêmica” foi o assunto da matéria
mais comentada da semana.
Sem carona na
garupa de moto,
o número
de vítimas
machucadas
ou assaltadas
diminuiria muito
— Geraldo de Paula e Silva
Caronas em motos
● Acho uma tremenda irresponsabilidade um
motoqueiro levar um carona em sua garupa.
As possibilidades de desastre aumentam, e se
descuidar da vida dos outros é uma prática indefensável.
Tendo em vista essa premissa e levando-se
em conta o número de assaltos praticados
por duplas em motocicletas, pareceme
salutar que sejam proibidas essas caronas.
Certamente, o número de vítimas machucadas
ou assaltadas diminuiria muito.
GERALDO DE PAULA E SILVA
Rio
Vans no Rio
● Vergonhoso que aadministração municipal,
que alardeia asua ordem pública, permita
de maneira escancarada todos os tipos
de arbitrariedade cometidos pelas vans de
transporte alternativo que circulam na nossa
cidade. Cruzamos diariamente com veículos
transportando uma grande quantidade
de passageiros em pé, colocando em risco a
integridade das pessoas que dependem desse
tipo de transporte. Sr. prefeito, a quem interessa
a manutenção dessa bagunça?
JOSÉ AUGUSTO MOREIRA
Rio
Haja seriedade!
● Através de placa da prefeitura, anunciou-se a
remodelação da Praça Afonso Pena, na Tijuca.
Fizeram um espaço para a prática de bocha,
inacabado e sem utilidade, a não ser como
canteiro delixo. Replantaram umas plantas
piores do que as plantadas em alamedas — nada
contra — de cemitérios, e que já são a marca
registrada dessa maltratada praça. Há um
mês, se muito, terminaram a confecção de
uma faixa na calçada da praça, no seu entorno,
de granitina vermelha. O material usado é tão
ruim que está esfarinhando, negando a própria
durabilidade da granitina. Informo que, para
tal, o valor inicialmente orçado, conforme citada
na já referida placa, seria de um pouco
mais de R$ 300 mil. Haja seriedade!
FRANCISCO ARRAIS
Rio
Fradinhos
Foto de Maria Aparecida Gomes
cem anos de perdão...
(@Bruno_Lams)
RT @JornalOGlobo: Ciro Gomes
é condenado a pagar
indenização de R$ 100 mil
por ter chamado Collor de
“cheirador”.
Agora será o Zé Agulha.
(@oliver_iq)
RT @JornalOGlobo: Fim do Zé
Gotinha? Governo determina que
vacina contra a pólio será
aplicada via injeção.
● Sem dúvida, a retirada dos fradinhos vai melhorar
o trânsito na calçadas eaestética de
nossas ruas. Contudo, é necessário que as autoridades
de trânsito garantam que não haja o
retorno dos estacionamentos em calçadas,
muito pior que os fradinhos, que surgiram para
evitar esse descalabro que havia escapado
totalmente do controle oficial, anos atrás.
JOSE ANTONIO MORA Y ARAUJO DE C. E SILVA
Rio
..........................................................................................................
MAIS RECOMENDADA
NA CONTRAMÃO de projetos de
recuperação da Bacia de
Jacarepaguá, a espuma branca
no Canal do Rio Morto, no
Recreio dos Bandeirantes,
sinaliza a poluição na área, como
mostra a leitora Maria Aparecida
Gomes. Segundo a Cedae, há
200 ligações clandestinas na
região. Ambientalistas apontam o
despejo indiscriminado de
detritos como a principal causa
para o fenômeno. Já técnicos do
Instituto Estadual de Meio
Ambiente (Inea) alegam que as
manchas vêm do mar, formadas
pela ressaca.
— oglobo.com.br/eu-reporter
Louco para manter o emprego,
hein?! (@LesCirqueira)
RT @JornalOGlobo: Embaixador
da Líbia no Brasil vira
a casaca e declara apoio a
rebeldes.
Só pode ser TPM! rs
(@danielaross)
RT @JornalOGlobo: Mulher
ataca caixa eletrônico com
sapato de salto alto.
Siga: twitter.com/jornaloglobo
● A matéria contendo o apoio de diversas
personalidades ao combate à corrupção no
governo federal foi a mais recomendada pelos
leitores do site do GLOBO na última semana.
Baderna no Centro
● O que o prefeito anda fazendo com o Centro
do Rio? Pedintes estão em todas as esquinas,
sujeira e poeira das obras da CEG tumultuam
as ruas, no trânsito não há controle
e a confusão, por exemplo, em frente ao Edifício
Central éabsurda, lembrando, ainda,
que carros e ônibus não respeitam as faixas
para pedestres, ecom isso fecham as ruas,
impedido que o cidadão atravesse no sinal
aberto para ele. Não se vê qualquer guarda
municipal controlando essa bagunça! Agora,
fica a pergunta: o que faz o prefeito?
CELSO EDUARDO THOMÉ
Rio
● Urge que as autoridades municipais responsáveis
pelo trânsito tentem passar entre as
ruas México eNilo Peçanha, tendo no centro
delas a Avenida Almirante Barroso. Em frente
ao prédio da Saúde, Anvisa etc., na Rua México,
os veículos (a maioria, carros oficiais)
chegam a fazer fila tripla, já que é permitido
(de forma inconcebível) o estacionamento de
veículos do lado direito edolado esquerdo,
reduzindo para uma única faixa de rodagem
para otrânsito, por onde, inclusive, circulam
ônibus. Nas demais, são veículos estacionados
(por guardadores clandestinos), inclusive nas
faixas de pedestres. É uma aventura tentar caminhar
e cruzar uma dessas vias.
JEZER MENEZES
Rio
Multas nos ônibus
● Diariamente, vejo coletivos cometendo inúmeras
infrações de trânsito, as duas mais
constantes, avanço de sinal e fechamento dos
cruzamentos. Quase sempre existe um guarda
municipal na esquina onde as infrações
são cometidas, mas, misteriosamente, os veículos
não são multados e nem os motoristas
repreendidos. Nunca ouvi falar de algum motorista
de ônibus que tenha atingido 20 pontos
na carteira de habilitação. Deve existir algum
acordo para que não sejam multados.
ROBERTO CASTELLO BRANCO
Rio
O GLOBO acolhe opiniões sobre todos os temas.
Reserva-se, no entanto, o direito de rejeitar acusações
insultuosas ou desacompanhadas de documentação.
Também não serão publicados elogios
ou agradecimentos pessoais. Devido às limitações
de espaço, será feita uma seleção das cartas e
quando não forem suficientemente concisas, serão
publicados os trechos mais relevantes.
As cartas devem ser dirigidas à seção Cartas dos
Leitores (O GLOBO — Rua Irineu Marinho 35, CEP
20.233.900), pelo fax 2534-5535 ou pelo e-mail
cartas@oglobo.com.br. Só serão levadas em conta
cartas com nome completo, endereço e telefone
para contato, mesmo quando enviadas por e-mail.
Domingo, 28 de agosto de 2011
O GLOBO
OPAÍS ● 9
ÉTICA X CORRUPÇÃO
No Turismo, a taxa de propina mais alta de Brasília
Empresários e ex-funcionários de ONGs revelam que valores desviados podem chegar a 60% do dinheiro liberado
Jailton de Carvalho
jailtonc@bsb.oglobo.com.br
● BRASÍLIA. Com a Operação
Voucher, a Polícia Federal trouxe
a público o lado podre das relações
entre altos dirigentes do
Ministério do Turismo eorganizações
não governamentais de
fachada. Mas oproblema pode
ser mais amplo do que a polícia
mostrou. Em conversas reservadas
com O GLOBO, empresários,
ex-funcionários de ONGs e
do ministério relataram que a taxa
de desvio chega, em alguns
casos, a 60% do dinheiro liberado.
Éataxa de corrupção mais
alta de Brasília. Supera até valores
que seriam desviados em
fraudes com obras da construção
civil e contratos com empresas
de informática.
— Eu falo isso porque conheço
a situação por dentro.
O desvio é de 60%. Em alguns
casos, nada é aplicado no projeto
—disse um importante
empresário ligado ao turismo.
Ofilão desse novo mercado
da corrupção seriam os cursos
de qualificação profissional. A
ideia de preparar trabalhadores
humildes para os novos desafios
do mercado é sempre bem
acolhida, e os projetos finais,
descentralizados e gigantescos,
quase nunca são fiscalizados.
Empresário discrimina
divisão da verba fraudada
As manobras de algumas organizações
são favorecidas
ainda pela obrigação do governo
de ampliar recursos para
a criação de infraestrutura
para a Copa e as Olimpíadas.
Com a condição de não ter
seu nome divulgado, o empresário
descreveu ao jornal como
a entidade da qual faz parte
está atolada em corrupção.
A organização recebeu expressiva
soma em recursos para
programas de qualificação
profissional. Oadministrador
do convênio embolsou 15% da
verba repassada a título de
pró-labore. Um percentual
mais alto, 25%, seria destinado
a um dos servidores do ministério
preso na Operação Voucher.
Os chefes do administrador
ficariam com mais 15%. Os
5% restantes seriam gastos na
compra de notas fiscais frias.
Segundo o empresário, o país
realmente precisa criar infraestrutura
emelhorar aqualidade
dos profissionais que terão
contato com os turistas nos
grandes eventos do calendário
esportivo. Mas nem por isso o
governo deveria tolerar desvios.
As facilidades de se apropriar
de dinheiro público teriam
deixado os novos ricos
deslumbrados. Eles estariam
comprando carros de luxo, fazendas
e viajando para o exterior
sem preocupação em esconder
a repentina fortuna.
— O problema é que alguns
desses vagabundos (dirigentes
de ONGs fajutas) ainda se
vangloriam de estarem ficando
ricos. Um deles estava dizendo
no último Salão do Turismo
que o filho já tinha um
BMW — diz o empresário. ■
Na montagem de
ONGs, o passo a
passo das fraudes
Com certidões falsas
e suborno, entidades
controlam processos
● BRASÍLIA. Um ex-funcionário
de uma das ONGs que mais recebe
dinheiro do Ministério do
Turismo relatou ao GLOBO,
também com acondição do
anonimato, como se faz uma
fraude. O primeiro passo é criar
uma ONG e comprar oCNPJ de
uma antiga. Para receber dinheiro
público, a ONG tem que ter
pelo menos três anos de existência.
O segundo passo é combinar
com servidores em postos
estratégicos a “taxa de sucesso”.
A partir daí, todo o processo
volta ao controle da ONG.
Dirigentes da entidade escolhida
fazem uma falsa tomada
de preço no mercado. Em geral,
as propostas são apresentadas
por empresas fictícias ou dos
próprios interessados. A etapa
final implica acompra de notas
fiscais e prestação de contas
fraudulentas. O fiscal “amigo”
não analisa a fundo a relevância
dos projetos nem aexecução
dos serviços. Alguns até implementam
parte das ações para
embaralhar auditorias do Tribunal
de Contas da União eda
Controladoria Geral da União.
Indagado sobre como sabia
tanto sobre as fraudes, o ex-funcionário
da ONG esclareceu:
— Eu fazia os projetos.
Convênio com Ibrasi revela
várias das irregularidades
Segundo ele, as artimanhas
não param na criação de “certidões
de nascimento” falsas e
simulação de tomadas de preço.
Algumas ONGs se apropriam
do dinheiro dos convênios
com acontratação de empresas
de parentes para executar
serviços. Nestes casos, a
ONG cumpre apromessa, mas
com preços acima do mercado.
O retrato 3x4 das irregularidades
estaria no convênio de R$ 4
milhões firmado entre oministério
e oIbrasi (Instituto Brasileiro
de Desenvolvimento de Infraestrutura
Sustentável), o
centro da Operação Voucher.
Segundo oprocurador Celso
Leal, que está à frente do caso,
quase todo o dinheiro foi desviado.
OMinistério do Turismo,
que já foi opatinho feio da Esplanada,
se tornou alvo da cobiça
de partidos e ONGs. A área já
foi reduto do PTB, do PT e agora
está sob controle do PMDB.
Nos últimos quatro anos, o
ministério repassou aproximadamente
R$ 750 milhões para
ONGs: 127 milhões em 2007, R$
126,2 milhões em 2008, R$ 196,3
milhões em 2009 e R$ 261 milhões
em 2010. Este ano já foram
liberados R$ 38,5 milhões. Por
conta de reportagens do GLO-
BO, desde julho, antes mesmo
da Operação Voucher, o ministro
Pedro Novais sustou assinaturas
de convênios e repasses
para ONGs que, somados, chegam
a quase R$ 40 milhões.
Procurado, Novais disse que
o ministério “encaminhou todos
os processos solicitados à Controladoria
Geral da União enão
irá se pronunciar até que a apuração
do caso seja concluída”. O
ministro afirma que, além da
suspensão de repasses e da assinatura
de novos convênios, tomará
todas as medidas para garantir
a correta aplicação dos recursos
públicos. ■